conto

Peçanha encontra o Debulhador

Alevino Peçanha cresceu em Sarça Verde, uma cidadezinha isolada nas Minas Gerais, perdida no tempo. Apesar de morar em um lugar pacato, cultivava um estranho fascínio por armas de fogo e admirava de longe os bandos de jagunços que porventura atravessavam aquelas redondezas. Sua mãe não gostava que seu filho tivesse esse tipo de tendência agressiva, mas o pai encorajava, chegando a dar de presente uma espingarda de chumbinho quando o menino chegou ao início de sua puberdade. Alevino se sentia realizado com aquela arma, atirava em árvores, pedras, latas velhas mas quando acertou um sabiá por engano matando-o, se sentiu péssimo. Ficou com um imenso remorso por ter dado fim à vida de outro ser vivo e a partir do acontecido ele decidiu que, para sua redenção, se entregaria ao dever de impedir que outros fizessem o mesmo: fez de tudo para tornar-se o xerife local. Estudou com afinco além de treinar pontaria com armas de fogo. Só pensava nisso o tempo todo. Distanciou-se da família e dos amigos.Seu trauma de infância, ao invés de ser reprimido, tornou-se uma neurose compulsiva. A única pessoa que insistentemente não se afastava dele era Dorinha, uma garota muito doce que acompanhava apreensiva em seus treinos. O aprendiz foi se aprimorando até que um dia resolveu que estava pronto para seu desafio final: atirar e acertar um alvo com o calibre mais alto. Acordou cedo, fez algumas flexões, respirou fundo e pegou o revólver, que era bastante pesado. Faltava o alvo! Pegou uma goiaba e a pôs em cima de uma pedra, ao longe. Quando já estava se preparando, Dorinha veio correndo ao longe gritando. Ele se desconcentrou e o coice da arma o jogou contra uma árvore, onde bateu a cabeça e desmaiou. Acordou na cama de sua casa, onde Dorinha chorava sem parar e implorava para que ele pensasse em outras coisas além de tiroteios e armas de fogo. Como o ferimento nas costas ia demorar a sarar, aceitou a proposta...e não se arrependeu. A moça se devotou completamente a ele que acabou se apaixonando por ela. Casaram-se e foram felizes por um tempo, até a chegada de uma estranha visita àquelas bandas. Veio no começo da noite. Era um garoto branco como cera de vela montado num cavalo. Vinha de Lagoa Beijada, um vilarejo que ficava ao sul dali. Depois de tomar uma sopa quente e descansar, o menino contou toda a história: uma criatura estava aterrorizando aquela região e foi apelidada de o Debulhador porque tem o hábito de arrancar a pele de suas vítimas e digerir parte de suas vísceras. Alguns dizem ter visto a criatura andando ao longe, gingando num compasso sinistro e soltando vez ou outra uma gargalhada aguda tão sinistra que assusta até os animais. A população está desesperada e sem ter o que fazer. O prefeito Otílio resolveu pedir ajuda às cidades vizinhas. Tinham resolvido mandar uma criança porque precisavam de todos os homens na cidade para caçar ou pelo menos se proteger da ameaça. Peçanha sentiu que deveria fazer algo a respeito, pois havia chegado o momento que valeria seus anos de esforço e treinamento. Dorinha obviamente foi contra e se agarrou com força na cintura do marido, forçando o mesmo a fugir durante a madrugada no cavalo que tinha trazido o garoto. Aliás, quando o eqüino percebeu que estava retornando ao local dos massacres, empacou e não deu mais um passo. Peçanha chegou em Lagoa Beijada no início de uma manhã um tanto mórbida.Uma neblina densa parecia envolver a cidade como uma mortalha. Não havia ninguém nas ruas e todas as lojas estavam fechadas. O único que recebeu o forasteiro_ e mesmo assim de maneira nada amistosa _ foi o ex-jagunço sobrenomeado Pedro Garrucha. Este disse não entender porque alguém se interessaria por aquelas pobres almas largadas naquele fim de mundo e o mandou embora. O xerife então explicou a chegada do menino assustado em Sarça Verde e seu pedido de ajuda. Pedro agradeceu oferecendo um gole de pinga em seu armazém de secos e molhados e Peçanha ficou sabendo mais a respeito da criatura: só andava a noite, apoiada nos dois enormes facões que carregava e tinha uma estranha predileção por mulheres entre 20 e 30 anos. Obter descrições mais detalhadas era impossível porque ninguém tinha chegado tão perto e voltado com vida. Alevino teve a idéia de dormir durante o dia e procurar o Debulhador quando chegasse o crepúsculo, seguindo-o no escuro e estudando seus hábitos. O ex-jagunço gostou da idéia e resolveu o acompanhar. Ajuntou uns sacos de farinha para improvisar uma cama em seu armazém para o novo amigo e juntos descansaram durante o dia para encontrar o desconhecido sob o luar. No início da noite, arrumaram suas armas e saíram. Era Lua Nova e o breu era tão intenso que muitas vezes eles acabaram se “trombando”. Como se as coisas não pudessem piorar, uma chuva começou a cair. Estavam a ponto de desistir quando ouviram uma gargalhada aguda e sinistra em meio ao barulho da chuva. Apesar de incrivelmente horrorizados com aquele som, resolveram ir ao encontro de sua origem. Avistaram então ao longe uma casa que tinha sua porta escancarada. Enquanto pensavam no que fazer, um grito de horror veio de dentro da residência. Foram correndo, mas no meio do caminho os gritos cessaram. Resolveram se separar: Peçanha entrava pelos fundos e Garrucha iria pela porta da frente. Foram se aproximando com cuidado e calculando uma forma de matar aquele ser. Um mórbido canto agora podia ser ouvido de dentro.Alevino abriu uma fresta da janela e assistiu a uma cena horrível: o Debulhador entoava um cântico enquanto se alimentava das vísceras de uma mulher morta em cima de uma cama. Foi uma cena tão impactante que o xerife se sentiu mal e caiu sentado no chão. Pedro entrou com cautela e carregou sua arma, mas quando foi mirar ficou tão atordoado com o que viu que errou, acertando o lampião que iluminava tudo. O monstro soltou um guincho de raiva por ter sido “interrompido” e olhou com raiva para o ex-jagunço. Os olhos da besta brilhavam no escuro como os de um gato. Aquele mirou no bicho e achou ter acertado porque ele saltou para trás. De repente ouviu um zunido e sentiu uma lâmina penetrando no braço que segurava a arma. Caiu no chão e enquanto agonizava percebeu que a criatura caminhava em sua direção. Andava com calma, como apreciando o pânico de Pedro. Tirou a lâmina lentamente e enquanto preparava seu golpe final não percebeu que Peçanha agora recuperado tinha uma espingarda apontada em sua direção. Tomou um tiro nas costas e caiu, dando tempo para que o amigo rastejasse para fora da casa. Será que o tinham matado? De qualquer forma Pedro agora não poderia mais ajudar, tendo que ficar em casa cuidando da ferida no braço. Foi inclusive obrigado a se mudar temporariamente para a pensão de Dona Constância, já que precisava de cuidados freqüentes para melhorar. O xerife não ficou convencido e retornou à cena do crime na manhã seguinte.O bicho tinha sumido. Alevino ficou intrigado. Seguiu os passos da criatura, mas eles acabaram num brejo. Repetiu a rotina do dia anterior, dormindo e se levantando ao anoitecer. Carregava agora uma tocha. Procurou incessantemente, mas não o achou. Mal sabia o caçador que estava sendo estudado por sua presa. Foi então que algo inesperado aconteceu. Peçanha voltava para casa cansado ao amanhecer após uma noite de buscas infrutíferas quando percebeu alguém correndo em sua direção.Era Dorinha.O jovem xerife ficou oscilou entre temer por sua amada e alegria por receber uma brisa doce e perfumada após tão intensas tempestades. Não dormia nem comia direito há dias. Estava magérrimo, seus olhos estavam fundos com grandes olheiras. Ela chorou muito quando viu seu marido neste estado. Conversaram com Pedro e ele deu autorização para que ela ficasse no armazém cuidando de Avelino. Dias se passaram sem que nada acontecesse. Peçanha relaxou por um momento mas não deixou de ficar apreensivo porque agora havia uma vítima em potencial ao seu lado por isso não deixava que ela saísse muito. A paranóia foi crescendo e os nervos de Alevino foram se definhando como galhos secos em uma árvore, apesar de não se preocupar mais em sair à noite procurando. Uma noite fechou-se o círculo. O xerife tentava dormir ao lado de sua esposa quando ouviu um grito de pavor distante, quase inaudível. Foi o bastante para que ele se levantasse da cama, trocasse de roupa, pegasse sua arma e saísse atrás da criatura que lhe tirava o sono, sem se esquecer de trancar a porta antes de sair. Andou às cegas, calculando de onde poderia vir o grito. Chegou a uma casa onde a luz do lampião estava acesa, as janelas estavam escancaradas, mas a porta estava fechada. Temendo receber um facão quando se aproximasse da janela, abriu a porta de supetão e o cadáver de uma jovem caiu em cima dele. Correu desesperado em direção ao armazém e ao chegar encontrou a porta aberta. Armou a espingarda e preparou-se para o pior. Foi entrando com calma e teve seus piores temores confirmados: o Debulhador se alimentava das vísceras de Dorinha. A criatura, ao perceber a chegada de sua nêmesis, soltou uma gargalhada fina, saboreando sua vitória. O que ela não esperava foi o que aconteceu depois. Peçanha sorriu também, dando um tiro no tórax do monstro, que caiu no chão desacordado.Alevino não parou aí. Amarrou a criatura, arrastou-a para fora, esperou calmamente que ela se recomposse, pegou um dos facões que ela usava e começou a mutilação, membro por membro, sem o menor sinal de pressa. O Debulhador soltava guinchos altos a cada corte dado com toques de sadismo e acabou por acordar muitas pessoas, dentre elas Pedro Garrucha, que agora quase sarado tinha vindo ver o que estava acontecendo. A expressão nos olhos do homem que outrora tinha se compadecido com um pobre pássaro morto era agora estranhamente assustadora. Quando só restou o tronco do bicho, ele pegou uma tocha e começou a queimar partindo da região da pélvis e só parou quando chegou no topo do crânio. Ao final só restava uma fogueira para onde ele chutou as partes mutiladas. Depois disso saiu andando com os olhares fixos no vazio, sumindo na direção do pasto que ficava ao norte da cidade. Nunca mais foi visto. Nem em Sarça Verde. O Debulhador fizera afinal sua derradeira vítima: seu mais fiel perseguidor.


Gilson Salomão Pessôa