conto

E agora, José?

Aqueles dois homens, tão velhos, naquele carrinho popular estalando de novo, estavam estranhamente fora do lugar. Os semblantes amargurados não pareciam fazer parte daquele vermelho vibrante, dos estofados com cheiro de novo. Quietos.Olhando assim, dava para dizer que não se preocupavam com o engarrafamento, o calor ou o ruído infernal das buzinas. Velhos, aposentados, é claro que saíram de casa bem cedo. Muito antes da hora. Não corriam o risco de um atraso. O homem no banco do carona estava de cabeça baixa, respirava devagar, mordia os lábios e apertava com força um papel na mão direita. De vez em quando, o motorista o observava. Sacudia a cabeça, com ar de reprovação e voltava a prestar atenção nos outros carros.

- E agora, José?

- Direita. Depois você segue reto até o final da rua.

O homem abriu a mão. Aproximou o papel do rosto. Uma foto antiga, provavelmente do tempo em que ele era jovem. Bastante bonita, aquela moça desbotada no papel. Cabelos escuros, curtos e anelados, olhos claros, ar desafiador... O velho foi ficando com as vistas vermelhas.

- Eu já te falei dessa foto, João?

João fechou os olhos só por um momento e decidiu não responder. Preferiu se concentrar na direção.

- Ela foi a primeira mulher da cidade a usar calça comprida. Eu estava junto no dia em que ela mandou fazer essa pantalona. Pantalona... As mulheres nem sabiam o que era isso. Nem a costureira sabia direito. E já te falei do cabelo dela, João?

- E agora, José?

- Você vai pegar aquele cruzamento ali e entrar na rua da padaria. Mas o cabelo dela...

- José, agora não. Eu não quero ouvir. Já me basta estar aqui. Você sabe que eu não gosto de dirigir nesse horário.

- Veio por que quis.

- Tá certo. Mas fica quieto.

José olhou a foto mais uma vez. Virou o rosto para a janela. Por que um homem de setenta e quatro anos teria algum problema em dirigir no final da tarde? Ele não tinha filhos, não tinha sobrinhos, nenhum primo sequer. O que o João teria a perder se, por exemplo, morresse naquele minuto, num acidente automobilístico? Ainda era bom, morriam os dois juntos e a família acabava ali mesmo. Nenhum deles teria que carregar o peso de ser o último de uma linhagem. Ele, que era mais velho, nunca viu sentido em tanto resguardo. Também nunca questionou as regras de João. Pensou como era engraçado. Quando criança, João, o remelento, vivia atrás dele. Queria brincar com José, queria andar com os amigos de José, queria até estudar com José e, aos cinco anos, confessou: queria ser José. Então, quando concluíram que suas vidas estavam mesmo perdidas e decidiram viver juntos, foi José quem virou João. Horários, programas na TV, plano de saúde, qualidade de comida, era tudo do jeito de João. Mas aquela mulher, aquela dor, aquele gesto eram dele. E João podia falar o que quisesse, não ia voltar atrás.

- E agora, José?

- Ainda falta um tanto, João, pode ir seguindo.

- Homem, você não precisa disso.

- Não me aborrece, João. Já te disse, se quiser eu desço do carro e vou sozinho.

- Você deve estar ficando esclerosado. Olha aí! O trânsito parado! Deixa isso pra outro dia.

- Eu vou encontrar a moça hoje. Vou enfrentar esse fantasma de uma vez por todas.

- Tá certo! Você faça isso mesmo! Que amanhã, nove e quarenta e cinco, você vai estar dentro do consultório do neurologista, José. Porque isso é uma veia entupida no seu cérebro. E só.

- Você vai ver. Você vai ver a moça. É ela, João.

- Eu não vou falar mais nada, não vou. Eu prometi. Depois de sessenta anos, não conseguir esquecer!

- Ela me destruiu, João. Você esqueceria alguém assim?

- Não, eu não vou mais falar.

José estava sem ar. Abaixou o vidro. A vida inteira não bastava para apagar. Será que ia morrer com a decepção gravada no rosto? A dor nunca ia passar. Aquela mulher era única. Ele teria construído um mundo para os dois. Calças compridas, carros, curso de contabilidade... Coisas de homem, ou de uma perdida como ela. Só ele podia entender Deolinda. Não havia outra em 1932 e não deveria haver outra hoje. Mas aquela moça... Aquela moça era ela. Um pouco mais jovem talvez. Está certo, os cabelos compridos, a voz mais delgada. Ainda assim era Deolinda. Essas coisas de sangue, que a genética explica.

- E agora, José?

- Pára ali, naquela ruela, ali tem vaga.

Havia vaga. Uma vaga. João demorou a vida inteira para estacionar. José não parecia irritado.

- E agora, José?

- Você sabe o que eu não posso perdoar, João? Ter escolhido outro, eu podia suportar. Mas um diretor de fábrica, proprietário de imóveis. Ter vivido aquilo tudo para terminar como todas as outras, João? Virar dona de casa! As coisas que eu passei pela Deolinda.

- José, eu não quero ouvir. Será que você está enten...

Perdeu a voz quando viu a garota dobrar a esquina. Era a Deolinda. Não. Mais alta, os olhos mais escuros. Também não tinha o “veneno” da Deolinda, que usava batom vermelho e andava bem reta, ignorando todo mundo. Ai, ai... Até ele teve uma queda pela Deolinda. Só não era idiota como o José. Nem teve nenhuma chance. Deu até razão quando ela sumiu. Uma mulher como a Deolinda era mesmo pra acabar na mão de um capitalista, muito bem tratada, apenas sendo linda e fazendo contas dificílimas, por diversão.

- Viu, João?

- Ora, José, eu acho...

Ia discordar exatamente quando a menina olhou com ar de desprezo para um rapaz que tentava abrir a porta para ela. Era a Deolinda, de calça jeans e camiseta.

- E agora, José?

- Eu vou lá.

- Meu irmão, que loucura você vai fazer? Vai mostrar uma foto velha e dizer o que? Afinal... Afinal aquela ali não é a Deolinda. Vamos pra casa, esqueça isso.

- É a neta dela, João. Neta. Podia ser parecida com a mãe, podia ter puxado ao avô burguês... Não, é a Deolinda. Em tudo, João. Fala como ela, age como ela. Deve ser egoísta como a Deolinda.

- Como é que você sabe da vida da menina? Faz favor.

- Eu sei.

- Tá certo. E agora, José?

- Me espera, eu não vou demorar.

José entrou no centro comercial. João saiu do carro, ia aproveitar para fumar escondido. Foi andando devagar pelos corredores, conhecia bem o caminho. Ainda faltavam quinze para as sete, não tinha pressa. Notou que o tráfego diminuía. A volta seria mais tranqüila. No elevador, uma mulher segurou a porta para ele. Uma jovem senhora gentil, preocupada com os velhinhos. O mundo só era bom porque a maioria das mulheres era assim. E ele escolheu amar justo uma víbora como Deolinda. Sua raiva aumentava a cada andar. O outro estava virando criança de novo. O que ia fazer ao dar de cara com a neta de Deolinda? Ainda mais depois de uma vida inteira odiando a avó da garota. Deu uma gargalhada. Não, não devia ser permitido outra Deolinda no mundo. Deus ia errar de novo? Não tinha jogado a forma daquela ingrata fora? Não, não era engraçado. José deve ter perdido meses pesquisando a vida da moça. Devia estar esclerosando há um bom tempo. Como não percebeu? Parou na entrada do curso de francês. Jogou a foto numa caixinha de areia ao lado da porta. Deu adeus para Deolinda. Entrou. Colocou a mão no bolso interno do paletó. Como não percebeu? Como não percebeu o que estava acontecendo com o irmão? O que ele ia fazer? Largou o cigarro, o carro aberto, nem sabia para onde tinha que correr...

- Por favor, estou procurando uma moça chamada Julinda.

- Je suis Julinda – Disse a menina levantando a cabeça ao ouvir o nome.

Se aproximou. Ela não teve tempo de reagir. Seis tiros no peito. Finalmente sentiu o alívio. Havia se livrado da cruz que carregou a vida inteira. Era livre. Para achar o irmão, João fez o caminho contrário ao da multidão. Todos corriam para o lado de fora, fugindo do maluco com a arma. Os tiros foram no sexto andar. E lá estava ele, parado, olhando para a menina caída no chão. Naquela poça de sangue, ela parecia menor, quase do tamanho da Deolinda. Procurou os olhos do irmão. Esquisito, ele parecia tão bem.

- E agora, José?.


Helena Heinz