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Teria elle vaga no BBB?

No Brasil, o início de um novo ano sempre traz a reboque algumas pautas obrigatórias nos meios de comunicação: calor, praias, frentes-frias, chuvas, enchentes, carnaval... Há algum tempo, a chegada de janeiro pressupõe também um novo Big Brother Brasil. Já estamos na quinta edição! Ano após ano, este brilhante espetáculo do tédio vem alcançando imensa audiência e comovendo multidões...

Desta vez, a TV Globo decidiu inovar na abertura do programa. Intercalados com as apresentações dos concorrentes escolhidos para habitar a “gaiola global”, a emissora colocou no ar trechos de filmes caseiros enviados por pessoas que desejavam participar do BBB, mas não foram escolhidas. O tom geral dessas imagens é – como seria de se esperar – tragicamente ridículo.

Numa primeira análise, estas gravações deixam evidente a capacidade que muitos têm de fazer loucuras por um lugar na mídia. Num mundo onde cada vez mais a essência subjetiva das coletividades se volta para as telas, os indivíduos buscam nelas – e não mais no paraíso dos religiosos tradicionais – a redenção.

Contudo, as conotações ficam muito mais interessantes quando comparamos tais gravações com outras exibidas igualmente pela TV Globo. Falamos aqui das propagandas eleitorais mostradas no Fantástico do primeiro domingo após as eleições. Naquela ocasião, a emissora também escolheu, em todo o Brasil, as imagens mais ridículas possíveis... Infelizmente, neste caso, os personagens do show circense não queriam uma vaga no BBB, mas pleiteavam votos para compor a Câmara Municipal de suas cidades.

A desconcertante semelhança entre estes dois episódios expõe claramente um outro fenômeno: a política tornou-se um espetáculo. Não só um espetáculo pastelão como nas citadas propagandas eleitorais, mas muitas vezes um espetáculo muito bem orquestrado. As eleições para os cargos majoritários – prefeito, senador, governador e, principalmente, presidente – evidenciam isso. Ou alguém não lembra da magia emocional de Duda Mendonça nas campanhas de Lula?

No entanto, este não é um acontecimento recente: a eleição de Fernando Collor ocorreu há uma década e meia. Já naquela época, usando sempre uma camisa ornada por uma frase de efeito, o “caçador de marajás” fazia corridas diárias por Brasília, a fim de promover a imagem de presidente atleta e “engajado”. Diante disto, fica a dúvida: se mandasse para a Globo a gravação de uma dessas corridas, conseguiria elle uma vaga no BBB? Ou acabaria no show pastelão da estréia?

Questionamentos deste tipo colocam à mostra um fenômeno que, de acordo com Nestor Garcia Canclini, é marca de nossos tempos: cada vez mais deixamos de ser cidadãos para nos tornarmos consumidores. Não só isso: apaixonamo-nos pela forma e abandonamos o conteúdo, desinteressamo-nos pela essência em troco da aparência, vivemos as emoções sem analisá-las sob o crivo da razão...


Cristiano Otaviano Verutti